Ensaio III
A recusa humana em reconhecer a própria participação no mal
Desde o Éden, o ser humano aponta para fora de si quando precisa explicar o mal. Da serpente ao sistema, da fiscalização ao álcool, a primeira desculpa da história ainda é a última.
Existe uma tendência recorrente, inclusive nos ambientes mais instruídos e politizados, de explicar o mal a partir de causas externas ao indivíduo. Quando se discutem desigualdades, crimes, degradação social ou comportamentos destrutivos, a atenção costuma se voltar para estruturas econômicas, culturais, políticas ou históricas.
Essas explicações possuem seu valor e muitas vezes são indispensáveis. Mesmo assim, chama atenção o fato de que raramente a responsabilidade pessoal ocupa o centro da análise. O olhar se dirige quase totalmente para aquilo que moldou o indivíduo e raramente para o indivíduo que agiu.
I. “Ninguém negou o ato”
Adão diante de Deus não nega o que fez, mas atribui a culpa a outro:
“A mulher que pusestes junto de mim me deu da árvore.”
Já Eva, por sua vez, disse:
“A serpente me seduziu e eu comi.”
Ninguém negou o ato. Ambos apontaram para fora de si quando foram confrontados pelo Criador.
Esse gesto é o primeiro na narrativa bíblica depois do pecado, e não é acidental que seja esse. Antes de qualquer lei, antes de qualquer sistema, antes de qualquer estrutura social, já está ali o movimento mais antigo do ser humano diante do próprio mal: buscar fora de si a origem daquilo que veio de dentro.
II. A fiscalização estatal
Recentemente, minha cidade aumentou consideravelmente a fiscalização de trânsito por meio de videomonitoramento. Do dia para a noite, inúmeros motoristas foram notificados com várias infrações. Isso ocasionou uma indignação generalizada: em um único dia, muitos chegaram a ser multados mais de uma vez.
Dentre os comentários, qual se tornou o mais frequente?
Justamente sobre o excesso de fiscalização do órgão da prefeitura, cuja principal intenção seria a arrecadação. Ao trazer esse fato, não quero eximir a culpa dos condutores, nem discutir se a fiscalização foi excessiva ou não. Quero observar que a grande maioria dos comentários tratou de tirar a culpa do erro dos motoristas e colocá-la exclusivamente na arrecadação estatal.
Se por um lado, em casos de acidentes de trânsito normalmente se culpa a falta de fiscalização, quando há fiscalização culpa-se o excesso dela e o interesse financeiro governamental. Essa desculpa do culpado exterior não é tão diferente daquela apresentada no Gênesis.
III. O álcool na cabeça
Numa conversa documentada após um crime grave, um dos envolvidos foi confrontado sobre o que havia acontecido. Ele não negou, mas disse:
“Com álcool na cabeça você nem percebe a merda que tá acontecendo.”
Independentemente do desfecho judicial, a estrutura dessa fala merece atenção. O gravíssimo ato não foi negado, mas o culpado foi deslocado. A responsabilidade foi transferida para uma substância, para algo externo que tomou o controle.
O padrão é similar ao encontrado em Gênesis. Nem Adão, nem Eva negaram o ato de comer o fruto proibido, mas terceirizam a culpa. O envolvido no crime não negou o ato, mas disse que foi por conta do álcool.
Nesses casos, a externalização não funciona como mentira sobre o que aconteceu, mas como apagamento do autor. A pessoa que cometeu o ato, foi removida da narrativa. O que resta é uma força exterior: a mulher, a serpente, a fiscalização excessiva, o álcool.
Se esse gesto é tão antigo e recorrente, o que explica sua persistência?
IV. Por que o pecado original ainda explica algo
O pecado original não é uma explicação para toda desigualdade social, para todas as mazelas do mundo. Não substitui uma análise histórica, econômica ou política e nem deve ser usado como tal.
Mas tenta explicar por que existe uma inclinação que permanece mesmo depois da consciência formada, mesmo depois da educação bem-feita. Essa é uma constatação repetida em todas as épocas, em todas as culturas e o que torna a doutrina tão persistente e atual. A doutrina do pecado original não inventou o fenômeno, porém tentou dar nome a algo que já era observável antes de qualquer doutrina existir.
V. A responsabilidade individual
O que Adão e Eva fizeram diante de Deus é o mesmo movimento que fazemos quando culpamos exclusivamente o sistema pelas mazelas sociais, de quando culpamos exclusivamente o Estado pelo excesso de fiscalização no trânsito, de quando culpamos exclusivamente um terceiro por um mal que nós mesmos cometemos.
Não se trata de negar que sistemas políticos e econômicos falham, que estruturas sociais são injustas, que o ambiente influencia. Tudo isso é verdade. Mas há uma camada anterior que nenhuma reforma estrutural alcança, porque ela não está na estrutura. Está em cada um de nós.
A primeira desculpa da história humana ainda é a última.