Ensaio II

Antes da Intenção: o mal que antecede a escolha

Uma criança empurra outra do alto de um escorregador sem motivo aparente e sai como se nada tivesse acontecido. O que esse gesto revela sobre a condição humana antes da razão e da moral?

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  • Pecado Original
  • Antropologia Católica
  • Fomes Peccati
  • Inocência e Pecado Original
Pintura sacra popular brasileira: duas crianças em um escorregador de madeira junto a uma capela caiada, terra molhada, vegetação verde e uma pequena brasa simbólica

O fato e o desconforto

Ao rolar os reels do instagram me deparei com um vídeo de uma criança empurrando uma outra menor da parte de cima de um playground. Após o ocorrido, a criança que empurrou sai andando como se nada tivesse acontecido. Sem raiva aparente, sem motivo claro, sem remorso visível.

O desconforto que essa cena me provocou não é simples de descrever e minha intenção não é julgar a criança. Sabemos que ela não tem a maldade formada de um adulto, mas ainda assim algo aconteceu que não deveria ter acontecido. Algo que machucou e poderia ter ocasionado um desastre maior. Algo que, se tivéssemos que nomear, chamaríamos de mal.

A pergunta que nasce desse desconforto é o tema deste ensaio:

Como o mal pode ser praticado antes mesmo que haja uma razão, intenção?

O que esse gesto revela sobre a condição humana que antecede a razão, a moral e a escolha?


O argumento que não resolve

Eu não parei apenas no vídeo, mas fui ler os comentários. As explicações mais comuns foram questões culturais ou ambientais: a criança aprendeu isso em casa, viu em algum vídeo, foi mal criada pelos pais… Pode até ser verdade em muitos casos. Mas essa explicação tem um limite. Ela pressupõe que a criança nasceu neutra e foi corrompida por algo externo a ela. Uma vez sem influências negativas, o ser humano tenderia naturalmente ao bem. Isso se assemelha com a visão do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau, mas isso não explica tudo. Não explica por que a inclinação ao egoísmo e à dominação aparecem mesmo em ambientes envoltos de cuidados, mesmo em crianças pequenas demais para ter sido “corrompidas” por nada. Thomas Hobbes pôs um contraponto na ideia de Rousseau argumentando que sem o controle do Estado a vida humana tenderia à guerra de todos contra todos. Essa visão pressupõe no homem uma capacidade natural para a violência quando não há nada que a contenha.

Ambas as ideias, otimistas e pessimistas a respeito da natureza do homem são extremas. Minha intenção não é me alongar nas ideias desses filósofos mas refletir se existe algo que antecede a cultura, que antecede a educação. Algo que está na condição, não apenas na ocasião.


A brasa que ninguém acendeu

Santo Agostinho observou isso nas suas Confissões, num trecho onde descreve uma criança que ainda não fala, não raciocina, mas olha com ciúme para o irmão no seio de sua mãe. Não existe nenhuma ideologia ali, não existe nenhuma maldade consciente. Entretanto, existe uma inclinação em direção a querer possuir, a querer ser o centro e a não querer dividir.

Santo Agostinho de forma alguma culpou o bebê. Ele estava apenas apontando que a desordem interior aparece antes de qualquer formação moral, antes da razão pois é anterior à própria escolha. Há algo na condição humana que precede a intenção e já inclina para o egoísmo.

A tradição teológica deu um nome técnico para isso: fomes peccati, a brasa do pecado. Isso não é culpa pessoal ou uma condenação. É o nome de uma inclinação herdada, presente antes do uso da razão e da vontade, tornando o ser humano propenso ao desvio mesmo quando ninguém ensinou o desvio.


O que o Sacramento do Batismo faz

O Batismo remove a culpa do pecado original, mas não extingue o fomes peccati. A inclinação permanece e a brasa continua acesa.

Isso não é meramente um detalhe técnico da teologia sacramental. O batizado não se torna imune à tendencia ao egoísmo, à dominação e ao querer o centro, mas recebe a Graça para reconhecer essa inclinação e para resistir a ela. O Catecismo é claro: as consequências do pecado original para a natureza humana, o intelecto obscurecido, a vontade enfraquecida, a inclinação ao mal, permanecem após o batismo e acompanham o cristão ao longo de toda a sua vida.

Essa é a razão pela qual a formação moral e espiritual não é opcional e nem decorativa. A criança batizada não está protegida da inclinação somente por ter sido batizada. Ela está equipada para o combate e tal pressupõe um adversário real e persistente. Negar o fomes peccati por otimismo pastoral não forma cristãos mais livres. Forma cristãos desarmados diante de algo que ninguém lhes explicou que existia.


O mal sem rosto demoníaco e sem desculpa cultural

O que esse gesto da criança no escorregador mostra é que o mal não precisa de um rosto demoníaco para existir. Não precisa de uma intenção plena, de uma ideologia, de uma maldade elaborada. Mas pode emergir de uma condição que antecede tudo isso.

Isso tem consequências para além da infância, como por exemplo o adulto que faz o mal “sem querer”, o líder que comete abuso moral “com as melhores intenções”, o funcionário que causa algum dano para um cliente, fornecedor ou concorrente por estar “apenas cumprindo ordens”, todos eles compartilham com a criança no escorregador algo estrutural: uma inclinação que não foi escolhida, mas que também não foi resistida.

A diferença entre a criança e o adulto está na responsabilidade que cresce com a consciência. A criança não sabia o mal que tinha cometido. O adulto, em algum nível, sabe. E é exatamente esse saber que torna o mal do adulto moral e ontologicamente diferente, mesmo quando a inclinação é a mesma.


A pergunta que fica

Se a inclinação para o mal é anterior à razão e a escolha, o que isso significa para a forma como educamos, lideramos e construímos comunidade?

O gesto da criança não revela uma culpa, mas uma condição. E essa condição não desaparece com a idade, ela apenas assume formas mais complexas.

A criança empurra a outra do alto do escorregador e o adulto, muitas vezes, faz o mesmo e também segue andando.


Referências

  • Agostinho, Confissões — Livro I (o lactente e o ciúme)

  • Catecismo da Igreja Católica §§ 405–409 (consequências do pecado original, fomes peccati)

  • Jean-Jacques Rousseau, Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755)

  • Thomas Hobbes, Leviatã (1651)